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I PREL√öDIO - 1736

A fundação da Coudelaria de Alter não foi um acto ocasional e isolada.
Surgiu como corol√°rio l√≥gico de um tempo hist√≥rico e de uma pol√≠tica coud√©lica, personificados em D.Jo√£o V, o Rei Magn√Ęnimo.
FUNDAçÃO - 1748


A ordem da Junta do Estado e Casa de Bragança, de 9 de Dezembro de 1748, marca a fundação da Coudelaria de Alter, e tem o significado simbólico de " Registo " da Coutada do Arneiro como " Solar " do cavalo de Alter-Real.
O documento fundacional da Coudelaria de Alter foi emitido por D.Jo√£o V como:
" ADEMINISTRADOR DA PESSOA E BENS DO PRINCIPE D.JOSé, MEU SOBRETODOS MTO AMADO E PREZADO FILHO, DUQUE DE BRAGANçA ".
ESTRUTURAçÃO - 1749 - 1770

é ao Rei D.José I que, quase inteiramente, cabe o mérito da estructuração da Coudelaria de Alter:
Forma√ß√£o da manada, instala√ß√Ķes coud√©licas, alargamento do assento agr√≠cola e da √°rea de pastoreio, promulga√ß√£o do primeiro regime coud√©lico que vigorou na Coudelaria.

A Casa Ducal de Bragança foi, como executante da vontade Régia de D.João V e de D.José I, o esteio da fundação e estructuração da Coudelaria de Alter.
APOGEU - 1771 - 1800


A Coudelaria é, então, da Casa Real que a recebeu, em 1770, da Casa de Bragança, num quadro de relação bem definido ; a Casa de Bragança, proprietária dos prédios utilizados pela Coudelaria de Alter ; a Casa Real, reconhecida como senhoria da manada, e na situação de rendeira daqueles prédios.
NA Picaria Real, em Lisboa, o ensino de D.Pedro de Meneses, 4¬ļ Marqu√™s de Marialva e Estribeiro - Mor da Casa Real, alcan√ßa a perfei√ß√£o no rigor da t√©cnica, na beleza dos movimentos, na eleg√Ęncia das atitudes.
O Cavalo Alter-Real atinge o seu esplendor.
DESVENTURAS - 1801 - 1820


A primeira vintena do s√©culo XIX foi um per√≠odo de sombras para a Coudelaria de Alter ; roubo dos melhores cavalos Alter-Real, danos nas piaras, redu√ß√£o na √°rea do pastoreio, vandalismo nas instala√ß√Ķes, primeiras amea√ßas √† integridade √©tnica da manada.
Em defesa da Coudelaria de Alter agiganta-se, neste período de sombras, a figura do Princípe Regente D.João. Mas era uma luz longínqua, no Rio de Janeiro, e em Portugal o Marechal inglês Beresford. Era o poder.







" Que se conserve sempre pura esta raça " 12 de Dezembro de 1812
" Que não se conssinta que pessoa alguma se intrometa com o que pertence às manadas e suas pastagens "
18 de Janeiro de 1815
INSTABILIDADE - 1821 - 1841


Da Nacionalização das Reais Manadas à usurpação da Coutada do Arneiro
Questionada até à existência da Coudelaria de Alter.
E mais uma vez D.João, já como Rei. A merecer um registo de memória no historial da Coudelaria de Alter.


CONTINUIDADE DIF√ćCIL - 1842 - 1910

Um longo tempo de dificuldades e sobressaltos para a Coudelaria, mas também de graves ameaças à integridade étnica do Cavalo Alter-Real, foi o tempo dos cruzamentos.


" O RETORNO AOS PADREADORES DE ALTER ( 1876 ), EMBORA IMPUROS √©TNICAMENTE, E A IMPORT√āNCIA DE GARANH√ēES ANDALUZES ( 1879 ) E DE √©GUAS ZAPATAS ( 1887 ) SALVAM A MANADA, DANDO-LHE A ESTRUTURA E ROBUSTEZ PERDIDAS COM A INTRODU√ß√ÉO DO √ĀRABE "
RUY ANDRADE - " ELEMENTOS PARA A HIST√ďRIA DA COUDELARIA DE ALTER "


COUDELARIA MILITAR - 1911 - 1941


Proclamado o regime republicano,
e arrestados os bens da coroa,
a Coudelaria é integrada no Ministério da Guerra, na dependência da comissão técnica de remonta, com o nome de Coudelaria Militar de Alter do Chão.

O tempo da Coudelaria Militar √© uma presen√ßa not√°vel na planifica√ß√£o das instala√ß√Ķes e na racionaliza√ß√£o da explora√ß√£o agricola da Coutada do Arneiro.


RECUPERAçÃO DO ALTER-REAL - 1942 - 1995


Em Janeiro de 1942 dá-se a integração da Coudelaria no Ministério da Economia, na jurisdição da Direcção-Geral dos serviços pecuários.
Começava um longo caminho de meio século de recuperação do Alter-Real.
A recuperação do Alter-Real foi um esforço tenaz e persistente, com tempos de grandeza e de crise, de maior dinamismo e de mais apagada a acção, mas, indiscutivelmente, um esforço coroado de sucesso.


REACTIVAçÃO DA COUDELARIA DE ALTER


1996 - ARRANQUE DE UMA NOVA ETAPA CULTURAL E TURISTICO DO NORTE DO ALENTEJANO.
  • M√©RITO DE DEFINIR E TRA√ßAR ESSE CAMINHO COUBE, EM 1996, AO ENGENHEIRO FERNANDO VAN-ZELLER GOMES DA SILVA, MINISTRO DA AGRICULTURA.
UM DESTAQUE QUE LHE é DEVIDO NO MEMORIAL DA COUDELARIA;
  • PELO RESPEITO COM QUE CONTEMPLOU O PASSADO;
  • PELA AMBI√ß√ÉO COM QUE PRESPECTIVOU O FUTURO DESTA CASA;


II - N√ļcleo do Sul de Minas dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador

Varginha(MG), janeiro de 1988.

Prezado Companheiro,

Em Outubro de 1987, reunidos em assembl√©ia, criadores de cavalos do Sul de Minas fundaram o N√ļcleo do Sul de Minas dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador. Naquela oportunidade, os Estatutos sociais foram aprovados, sendo que a forma de administra√ß√£o adotada √© a mais moderna que se possa desejar: Conselho de Administra√ß√£o. √© o Sul de Minas carregado de tradi√ß√Ķes, demonstrando a evolu√ß√£o e a adapta√ß√£o aos tempos modernos. Este √© o esp√≠rito fundamental do N√ļcleo: calcado em id√©ias novas, mantendo tradi√ß√Ķes.

Eventos regionais e de √Ęmbito nacional ser√£o promovidos. O Sul de Minas mostrar√° ‚Äď sob a √©gide do N√ļcleo, ao qual j√° se filiaram mais de cem sul-mineiros nesta fase inicial ‚Äď que est√° atento √† evolu√ß√£o, embora seja reposit√°rio das mais arraigadas tradi√ß√Ķes, como se ver√° a seguir.

Nos primeiros anos do S√©culo XVII vieram para o Brasil as fam√≠lias de Manoel Gon√ßalves Correia (‚Äėo Burg√£o‚Äô) e de Manoel Gon√ßalves da Fonseca. Eram provenientes da Ilha de Fayal, no arquip√©lago de A√ßores, Portugal. Instalaram-se na freguesia de Nossa Senhora do Pilar de S√£o Jo√£o Del Rey, perto do Rio das Mortes Pequeno.

Dessas fam√≠lias descendem as famosas ‚ÄėIlhoas‚Äô, das quais prov√™m algumas das mais tradicionais fam√≠lias de Minas, como os Resende, os Junqueira, os Andrade, os Carvalho, os Meirelles, os Reis e os Ferreira, para citar apenas algumas.

A região onde se instalaram, em muitos pontos semelhantes à de origem, exigia para sobrevivência, perfeita adaptação, não só das pessoas, como principalmente dos animais de criação. Assim é que dessas famílias foram desenvolvidas raças de animais que se caracterizavam principalmente pela rusticidade, produtividade, docilidade e perfeita adaptação à finalidade para que eram criadas.

Através dos descendentes da Ilhoa Helena Maria, casada com João de Resende Costa, surgiu o jumento da Raça Pega e foi desenvolvido o que viria a ser o cavalo da Raça Campolina.

Da Ilhoa J√ļlia Maria da Caridade s√£o os descendentes que desenvolveram a ra√ßa de cavalos Sublime, depois denominada de Mangalarga.

Na regi√£o do Rio das Mortes se instalou uma filha de J√ļlia Maria, Ana Maria do Nascimento. Ali se dedicava √† minera√ß√£o.

Para as bandas das Comarcas de Baependi e Aiuruoca instalou-se outra descendente de J√ļlia Maria, Helena Maria do Esp√≠rito Santo, que se casou com Jo√£o Francisco Junqueira, da Fazenda do Favacho.

A partir daí a mineração foi paulatinamente abandonada, sendo substituída pela agropecuária, com ênfase para a criação de gado e equinos de sela.

Foi então que se iniciou a seleção que viria a ser o Mangalarga Marchador.

Dentro de mais alguns dias nós voltaremos até você. Continuaremos narrando os primórdios do cavalo que criamos.

At√© l√°, ent√£o, e receba os cumprimentos dos associados do N√ļcleo dos Criadores do Sul de Minas do Cavalo Mangalarga Marchador.

O CONSELHO DE ADMINSTRAçÃO

Anibal Junqueira de Andrade
Antonio Lima Reis
Bruno Teixeira de Andrade
Caio M√°rcio Resende Diniz
Jairo de Andrade Alvarenga
João Sérgio Reis
José Alfredo Reis II
José Márcio Carvalho Leite
Nélson dos Reis Meirelles
Rogério Figueiredo de Carvalho
Rosalbo Francisco Bortoni



III - N√ļcleo do Sul de Minas dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador

Varginha(MG), fevereiro de 1988.

Prezado Companheiro,

No mês passado, você recebeu uma carta nossa. Falávamos a respeito da tradição e formação do Sul de Minas, especialmente quanto aos que se dedicaram à seleção e início de fixação de um novo tipo de cavalo, que veio a ser o Mangalarga Marchador. Agora, vamos continuar.

Os descendentes de Helena Maria do Esp√≠rito Santo, filha da Ilhoa J√ļlia Maria da Caridade, ao come√ßarem a trocar suas atividades extrativas ‚Äď minera√ß√£o ‚Äď pela agropecu√°ria, desenvolveram um tipo de cavalo de porte m√©dio, forte, de boa ossatura, frente um tanto carregada, perfil pouco retil√≠neo, com tend√™ncia para o subconvexo, pesco√ßo de inser√ß√£o baixa. A garupa, nem sempre longa, com inser√ß√£o de cauda quase sempre baixa. O andamento, muito variado. Desde o diagonalizado at√© o lateralizado puro, a andadura.

Dados hist√≥ricos e geogr√°ficos, al√©m do pr√≥prio tipo do cavalo, nos permitem imaginar que estes animais fossem origin√°rios do cavalo barbo ou berbere, do Norte da √Āfrica, e tamb√©m das ra√ßas nativas da Pen√≠nsula Ib√©rica ‚Äď o Minho, o Garrano e o Sorraia, sendo que estas j√° possu√≠am tamb√©m o sangue barbo, por invas√Ķes mouras na Pen√≠nsula Ib√©rica. Da√≠, por invas√Ķes ib√©ricas, chegaram ao Brasil.

Posteriormente, temos not√≠cia da introdu√ß√£o do sangue andaluz-lusitano, j√° no criat√≥rio de outro descendente das Ilhoas, o Bar√£o de Alfenas ‚Äď Gabriel Francisco Juqnueira, que foi presenteado pelo Imperador com um garanh√£o vindo da Coudelaria de Alter do Ch√£o, em Portugal. Pela milit√Ęncia pol√≠tica na Corte e acesso √†s rodas de express√£o nacional, o Bar√£o deu grande notoriedade √† ra√ßa que ent√£o come√ßava a se desenvolver.

A ra√ßa, ent√£o dita Sublime e depois Mangalarga, teve v√°rios n√ļcleos formadores, da√≠ sua diversidade e relativa falta de padroniza√ß√£o, o que de certa forma ainda hoje se observa.

A sele√ß√£o inicial se fez principalmente visando o andamento cada vez mais c√īmodo, trabalho esse que veio desaguar na marcha batida ou picada, conforme a localiza√ß√£o de cada n√ļcleo. Naqueles mais pr√≥ximos √† regi√£o do Rio das Mortes, portanto mais influenciados pela minera√ß√£o, a prefer√™ncia era pela marcha picada. Nos n√ļcleos localizados mais pr√≥ximos √† Baependi, Aiuruoca, S√£o Thom√© das Letras, em que a atividade principal passara a ser a pecu√°ria, havia n√≠tida prefer√™ncia pela marcha batida.

Interessante em tudo isto notar que os c√£es tiveram bastante import√Ęncia na fixa√ß√£o do tipo de andamento dos cavalos. Era costume ‚Äď e ainda √© ‚Äď na regi√£o, a ca√ßa ao veado-campeiro, na qual se utilizam animais de andar mais equilibrado e velozes para acompanhar as matilhas da ra√ßa Nacional. O Nacional era um c√£o de ca√ßa amarelo ou avermelhado, de pouca ou nenhuma pinta, de pouco faro, goela fraca (na linguagem do ca√ßador significa o c√£o de uivo fino e pouco expressivo). Mas era um grande velocista, que perseguia a ca√ßa orientado pela vis√£o e n√£o pelo faro.

Posteriormente, √† cidade de Carrancas, chegaram alguns exemplares de c√£es que hoje chamamos ‚Äėamericano‚Äô. Esses Fox Hound foram trazidos por um engenheiro americano que trabalhava na constru√ß√£o da estrada de ferro regional. Eram c√£es bons de faro e j√° n√£o perseguiam a presa orientados pela vis√£o. Com eles transformou-se o tipo de ca√ßada, j√° agora sem o objetivo de matar, mas com o de apreciar o trabalho dos c√£es pelo faro e ouvir o toque. E a montaria das ca√ßadas foi sendo mudada. Dos antigos cavalos corredores, a procura j√° era por cavalos mais c√īmodos.

Claro que no meio de tudo isto foram aparecendo os homens que mais se identificavam com os cavalos, com sua criação e seleção. E cada qual partiu em busca de SEU cavalo.

Então começaram a surgir as LINHAGENS.

Dentro de mais alguns dias n√≥s voltaremos, mais uma vez, at√© voc√™. Abordaremos ent√£o, a forma√ß√£o inicial das linhagens, entre os descendentes da Ilhoa J√ļlia Maria da Caridade, atrav√©s de sua filha Helena Maria do Esp√≠rito Santo, que se casou com Jo√£o Francisco Junqueira, da Fazenda Favacho.

Até lá, então.

Receba os cumprimentos dos associados do N√ļcleo do Sul de Minas dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador.

O CONSELHO DE ADMINISTRAçÃO


Faça o download do texto na íntegra clicando aqui.


VI - A Formação do Cavalo Mangalarga Marchador no Brasil

por Bruno Teixeira de Andrade, criador da Raça Mangalarga Marchador, em Carrancas (MG) e publicado no site http://www.ocavalo.com.br/artigos


Saiba um pouco como ele se formou, que caminhos seguiu e est√° seguindo

O cavalo trazido ao Brasil pelos colonizadores derivava das quatro ra√ßas ent√£o existentes na Pen√≠nsula : Marismenho (ou Sorraia), Garrano, Andaluz (ou Lusitano) e Berbere. Foi introduzido primeiramente em Pernambuco, depois Bahia, S√£o Vicente, S√£o Paulo e pelas col√īnias do Prata. A Capit√Ęnia de Minas Gerais n√£o foi das primeiras a serem colonizadas. Somente com a descoberta do ouro e depois, do diamante, √© que ocorreu a grande aflu√™ncia de pessoas para l√° e a conseq√ľente necessidade de animais de sela e carga.

Do norte, vieram animais de Pernambuco e da Bahia, acompanhando gado e margeando o Rio S√£o Francisco, ent√£o chamado 'rio dos currais'. Do sul, vinham imensas tropas de mulas e animais de sela para serem vendidos para quem tinha dinheiro, ou seja, os mineradores e contratadores do ouro.

A venda de animais do Sul tornou-se tão próspera e crescente que se formou posteriormente uma feira para onde afluíam vendedores e compradores : a Feira de Sorocaba. De lá, os animais originados do Sul se espalhavam, vindo principalmente para Minas. Para as Minas Gerais vieram os mais variados tipos de animais, sem nenhuma padronização, coisa com o que naquela tempo ninguém se preocupava. A preocupação era apenas funcional e os animais que não se prestavam para a sela eram de imediato destinados para o serviço de carga, incluído aí o uso em liteiras.

No Brasil de ent√£o (e principalmente em Minas), n√£o havia cria√ß√£o especializada de gado de corte ou de leite, motivo pelo qual tamb√©m n√£o havia a sele√ß√£o de animais para a lida. Os animais criados e selecionados eram destinados apenas ao transporte de sela ou carga. Conhecemos casos de cartas solicitado animais de passo picado ou travado para uso pr√≥prio. Um bom cavalo de sela valia em torno de duas vacas escolhidas. Mas um bom cavalo de silh√£o valia quatro. Isso porque um cavalo de silh√£o deveria apresentar caracter√≠sticas pr√≥prias. Al√©m de √≥timo temperamento, mansid√£o, boa boca, faltava a caracter√≠stica principal que era a andadura. Explica-se : antigamente era considerado feio a mulher montar a cavalo como se monta hoje. Criou-se, ent√£o, o silh√£o, no qual a mulher, em vez de montar o animal, assentava-se de lado sobre ele. Ora, assentando-se de lado, √© mais c√īmodo aquele animal cujo centro de equil√≠brio oscila lateralmente. Da√≠ a cria√ß√£o e a grande valoriza√ß√£o dos animais de andadura. E a andadura veio do Garrano, sendo anterior √† marcha como a conhecemos hoje.

Em Minas, com a grande aflu√™ncia de gente em busca do ouro, estava criado o ambiente ideal para a forma√ß√£o das ra√ßas marchadoras. Havia a necessidade de se deslocar por grandes dist√Ęncias com conforto; havia dinheiro proveniente do ouro para a aquisi√ß√£o do que houvesse de melhor e, por fim, tendo material farto com que trabalhar, havia a sutileza do criador mineiro, que, atrav√©s de cruzamentos direcionados, produziu as marchas picada e batida. Mas faltavam a esses animais o porte e a nobreza, que s√≥ vieram depois, com os cavalos reais doados pelo Imperador.

Esse sangue entrou, posteriormente, no criatório de Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, através de um garanhão (Sublime?), que havia sido presenteado pelo Monarca. O Barão, por ser político e viver na Corte, com acesso às rodas de expressão nacional, deu grande notoriedade à raça que se formava. Mas considera-se como sendo o grande responsável pelo desenvolvimento e aprimoramento da raça, José Frauzino Junqueira, do Favacho.

Tal ra√ßa, antes dita Sublime, e depois Mangalarga, teve v√°rios n√ļcleos formadores, da√≠ sua diversidade e relativa falta de padroniza√ß√£o, o que at√© hoje se observa nas linhagens formadoras. Naqueles n√ļcleos √† direita do Rio Grande, portanto mais ligados a regi√£o mineradora, observamos uma prefer√™ncia pela marcha picada, enquanto que, √† esquerda do Rio Grande, regi√£o mais de pecu√°ria e j√° se iniciando no esporte do veado campeiro, havia n√≠tida prefer√™ncia pela marcha batida. Cabe aqui mais um apequena digress√£o.

Conquanto devemos reconhecer atualmente os inconvenientes da caça, somos forçados a admitir que sem ela talvez hoje o nosso cavalo não seria o mesmo. De início, o caçador necessitou de animais de andar mais equilibrado e um pouco mais galopador para acompanhar as matilhas da raça Nacional. O Nacional era um cão de caça amarelo ou vermelho, de pouca ou nenhuma pinta e de pouco faro, o que o obrigava a ser grande corredor, pois acompanhava a caça mais pelos olhos que pelo rastro. Também tinha pouca goela, o que significa que o cão tinha uivo fino e pouco expressivo. Por isso o caçador tinha de acompanhar de perto a caçada, o que não era fácil em região tão montanhosa.

Posteriormente, Olimpio de Souza Andrade, de Carrancas, recebeu de presente, do engenheiro que trabalhava na constru√ß√£o da estrada de ferro, um terno (um macho e duas f√™meas) de c√£es Fox Hound (conhecidos como americanos), menos corredores e que, sendo de bom faro, n√£o precisavam mais acompanhar a ca√ßa de vista, e isso mudou totalmente a ca√ßada. Agora, j√° sem o objetivo de matar, o ca√ßador deleitava-se em observar do alto dos outeiros o trabalho dos c√£es pelo faro e ouvir o toque. Ent√£o, a procura passou a ser por cavalos menos corredores e mais c√īmodos para o cavaleiro, que precisava voltar para a casa √† noite, muitas vezes com chuva, com conforto e rapidez. A passo n√£o chegaria e a galope nenhum cavalo ag√ľentaria, depois de um dia de ca√ßada.

Nisso se resume a caçada no Sul de Minas, diferente da dos paulistas, que em região plana, de descampados, o caçador continuava a ter necessidade de acompanhar a matilha de perto, a todo galope, se não quisesse perder os melhores momentos. Até então, o cavalo Mangalarga, nome que de há muito substituíra o Sublime, era um só.

Com a fundação em 1934 da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga e a opção pela marcha trotada, os mineiros não se sentiram confortáveis em aderir a mesma. Alguns do sul de Minas até o fizeram em homenagem aos parentes de São Paulo, mas por tempo limitado, visto que os objetivos eram diferentes.

Por isso em 1949, foi fundada em Caxambu, no Hotel Glória, sob a presidência e José Bráulio Junqueira de Andrade, a Associação dos Criadores do Cavalo Marchador da Raça Mangalarga. Associação que , depois, a pedido de Bolívar de Andrade, Juscelino Kubitschek a tornou Brasileira. No dia da solicitação, Bolívar de Andrade se fez acompanhar de Bolívar Drummond e então, Juscelino, bem humorado, disse : Resistir a um Bolívar já é difícil, a dois impossível, e concedeu o pedido.

Muitos lamentaram que houvesse uma raça com dois registros, mas os objetivos é que eram diferentes. E o distanciamento ao longo do tempo, era inevitável. Seja como for, é importante deixar claro que a raça Mangalarga era, inicialmente, uma só e foi desenvolvida por descendentes das três Ilhoas, como mencionei anteriormente.

Hoje, subdividida em duas (a Mangalarga e a Mangalarga Marchador), que infelizmente se distanciaram por diferen√ßa de objetivos, teve como origem v√°rios n√ļcleos formadores, todos eles constitu√≠dos por criadores descendentes das famosas Ilhoas, vindas da ilha de Fayal, A√ßores, √†s quais, neste momento, prestamos nossas homenagens. Em todo mundo sempre houve a preocupa√ß√£o de se conseguir cavalos de andamento c√īmodo, a ponto de na It√°lia denominarem os cavalos trotadores de torturadores. Em muitos lugares foram adotados meios artificiais (e at√© desumanos) para se conseguir o amaciamento do andar, mas somente aqui entre n√≥s foi que se obteve esse resultado via gen√©tica.

Sabemos que n√£o temos a exclusividade da marcha (pois ela existe de formas variadas em ra√ßas da Am√©rica do Sul, na Isl√Ęndia e outros lugares, e at√© mesmo em algumas ra√ßas de tra√ß√£o), mas s√≥ n√≥s temos a marcha de qualidade e num cavalo de qualidade : e nisso somos os √ļnicos no mundo. √© essa marcha de qualidade que nos cumpre preservar e at√© mesmo aprimorar por meios naturais de sele√ß√£o. E aqui a palavra chave √© natural. A escolha dos reprodutores e matrizes deve ser feita visando aqueles indiv√≠duos que marcham naturalmente e n√£o os que aprenderam a marchar por meios artificiais. S√≥ eles podem transmitir a sua descend√™ncia esse andamento t√£o procurado hoje, infelizmente, j√° se torna raro. N√£o se assuste, caro leitor, com essa afirma√ß√£o. Ela √© verdadeira. A marcha natural √© hoje proporcionalmente muito mais rara do que era algum tempo atr√°s. E isso gra√ßas a v√°rios fatores que posso enumerar.

O primeiro deles foi a preocupação com a beleza puramente estética. Da década de 70 para cá, houve, por parte de alguns, uma crescente preocupação com a beleza puramente estética dos animais (ignorando as belezas zootécnicas, como se diz em Portugal) e, esses, confundindo as origens, trabalharam no sentido de arabizar o marchador.

Ora, a preocupa√ß√£o est√©tica gerou graves conseq√ľ√™ncias zoot√©cnicas. Temos hoje muitos animais de temperamento inferior ao cavalo antigo. Tamb√©m quanto √† boca, hoje avultam os animais de dif√≠cil acerto, originando o uso de embocaduras variadas, no af√£ de acertar bocas e colocar bem as cabe√ßas. √© grande o n√ļmero de animais de cernelha empastada, cauda levantada e movimentos pouco articulados. Mas o pior de tudo √© a preponder√Ęncia dos animais diagonalizados. Muitos deliram com a possibilidade de primeiro fazer um animal belo e depois lhe acrescentar a marcha. As duas coisas devem caminhar juntas desde o in√≠cio ou n√£o se encontrar√£o jamais. Hoje o mercado (nacional e internacional) est√° √°vido por cavalos c√īmodos, belos e de pelagem variada. Padroniza√ß√£o vai muito al√©m de igualar pelagem.

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